segunda-feira, 1 de julho de 2013

Manifestação do amor

Seja uma faixa de pano ou cartolina, pouco importa, pega a tinta e pinta a sua insatisfação. Escreve torto, pois é mais romântico e menos artificial. Rabisca o sentimento guardado há tempos de sofrimento. Todos saberão do seu pesar, muitos abraçarão a sua causa e manifestarão apoio.

Vamos às ruas atrás do nosso direito de ser feliz, de pedir mais alegria em nossos dias, reivindicar a compaixão esquecida pela tormenta da rotina. Gritaremos palavras de ordem contra a repressão que inibiram as paixões proibidas e os amores que não seguem a lei do destino.

Com meu cartaz em mãos exijo menos solidão, menos desconfiança, menos insegurança e menos mentiras. Ao meu lado alguém protesta pedindo mais sinceridade, mais respeito e mais carinho. Ninguém aguenta mais tantos impostos no amor. Troco vinte centavos por vinte longos suspiros.

Os protestos continuam. Muitos nas ruas, mas poucos sabem o que realmente querem. Há os alienados, os politizados e os aproveitadores. De repente me vejo enquadrado por se aproveitar da ocasião, de abusar da fragilidade de alguém com o coração desguarnecido, um ato de vandalismo em causa própria.

As ruas foram um pretexto para fugir da solidão. Para encontrar – quem sabe – uma companheira para lutarem juntos pelas causas sociais e matrimoniais. Nada de política e economia. Fazemos parte da geração do desapego, mas que agora estão cansados de acordar sem ouvir um "bom dia" vindo do travesseiro ao lado.

É a revolta dos desamados, dos que cansaram de não ter alguém do lado, que foram às ruas para protestar e se apaixonar. É a manifestação do amor.  

domingo, 28 de abril de 2013

Aos mundos iguais


Está aberta a temporada de fugas e desculpas. Chega do mesmo e o oposto imperando em nossas vidas. Vamos atrás do similar, parecido, análogo ou quem sabe o tão abençoado algo em comum. Vamos aplicar um filtro para nossas escolhas.

É um espaço dado inconscientemente. Uma pequena brecha ao convidativo que a carência e a solidão entram em estado de libertação. Provocamos o hasteamento da bandeira branca para decretar nossa paz interior.

Não olhamos além. É a irracionalidade que nos entorpece, tira o foco, altera a rota, se intromete no destino. É a atração que nos invade sem pedir licença. Hipnotiza.

O argumento são sempre os mesmos: afinidade, beleza física, bom papo, senso de humor, entre outras. Mas entre as citadas, a primeira talvez seja a mais importante, pelo menos a médio e longo prazo. Afinidade é o carro chefe, seja em um caminho plano, estreito, sinuoso, é o que dita o ritmo.

É sensacional quando contamos histórias e de repente ouvimos um “eu também”, mas quando somos nós que estamos ouvindo e os olhos brilham na identificação com o que foi contado, é de peito estufado que dizemos “nossa, que irado. Eu também”. Faz-nos ir além da imaginação. Vicia, aglutina, é quase uma viajem transcendental para um futuro a dois. É como acertar - de primeira - a chave da porta no meio entre tantas no molho.

Toda mudança gera um desconforto, por isso queremos mundos parecidos. Não é facilitar, tampouco dar um “jeitinho”. Queremos descomplicar o mundo dos ditos racionais. Friamente pensando, é a busca do mais óbvio.


Então que seja sempre assim: meu mundo, seu mundo, nosso mundo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Procura-se a verdade


Sinto a solidão pulsar de leve sobre meus olhos e dar início a uma nova fase. A fase do conhecer. Aquela de muitas carícias, muitos sorrisos, elogios, abraços apertados e mensagens de bom dia, boa tarde, boa noite e bom saber que você está gostando de mim. Pois é. 

Para muitos é a melhor fase, mas para mim é a mais torturante. Desconfiado, cravado com um pé atrás, usando sempre a primeira marcha, assim vamos nos aventurando na deliciosa e perigosa trilha do “ficar”, “rolo" ou “nos conhecendo”. 

É a fase que normalmente as pessoas não procuram os defeitos, apenas querem se enquadrar com as qualidades. Ter sempre o argumento que está sendo “diferente”.  Dizer que é o abraço mais sincero, o beijo mais quente, o carinho mais suave, o olhar mais atencioso, o papo mais cabeça e as risadas mais prazerosas. 

Digo que é perigosa exatamente por isso. A fase de que acreditamos ser tudo perfeito. Ao contrário de como gira essa roda, olho diferente. Procuro os defeitos, as inquietações, o desconforto, mas também procuro – a minha maneira – todas as qualidades citadas anteriormente.

Porém, existem pessoas que se apegam em coincidências para justificar que podem dar certo uma com a outra, quem sabe o amor. Gosto de gente com defeito de fábrica, que não esconde suas imperfeições, que não oculta seus problemas e suas fraquezas para que a outra pessoa não desista logo no início.

Gente que se entrega sem medo de ser desbravada, entendida e compreendida. Gente que transpira a verdade. Nada mais que a verdade.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Olhe pela janela


Há um tempo buscávamos a certeza de que sabíamos do que queria. Procurávamos o mesmo que todos procuram. Uma rápida solução, o despejo de uma agonia, os traços desconcertados de um sorriso sem sentido, o olhar sem direção.

Encaro como uma aventura a dois, mas que na verdade é a minha viagem insólita em busca do paraíso perdido; ou que talvez nunca tenha sido encontrado, quiçá existido.

É a procura pelo desconhecido, uma ameaça fantasma que assombra de quem se aproxima. Começa assim, sem destino, uma viagem só de ida, mas com a possibilidade de parar no meio do caminho. Sempre para. Tem sempre algo cativante que notamos olhando pela janela.

Embarco acompanhado, mas desço sempre sozinho. É o zelo pela minha própria excursão na que teimamos em chamar de vida. O que interpreto pela janela é individual, faz parte da minha ótica, vejo e depois imagino. Desço e depois construo. Destruo se for o caso.

Há quem descreve o que há do lado de fora com uma canção para quem leva sempre na bagagem o seu violão. Outros retratam em uma tela pintada ou até num rascunho em uma folhinha de papel. Existe sempre uma forma de registrar o que se passa ao seu lado para depois recordar. O que não é o meu caso. Vou lá e vivo, faço uso, desfruto, atribuo valor a palavra existir.


Peço que pare e dou um até logo. Não gosto de despedidas, muito menos lágrimas. Encontrastes-me no meio do caminho, por isso não há motivos para desperdiçar seu choro. Sigamos nossos rumos, a quem tem coragem, espírito aventureiro, quem leva sempre o próprio travesseiro ou apenas um trocado para bancar suas doses e seus tragos.

A viagem tem o destino certo para todos, menos para quem viaja com a cortina aberta.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Com todas as letras


Eu que não me abalo, que não me faço de fraco. Eu que procuro alternativas até encontrar uma solução. Eu que não desisto enquanto o desejo ainda vive em mim. Vou soluçar e esfregar uma mão na outra, levantar da cadeira e sair para respirar. Eu que não me prendo ao sufoco.

Que quando ainda sinto, volto atrás. Que não paro de pensar um só minuto, de te olhar sempre que posso, de te ler quando possível. Sinto seu desespero mesmo que de longe. Procurando maneiras de mostrar que está sendo forte para se sentir melhor. Pensando em tudo e todos, menos em você.

Não te convido para um café, conversas ao vento para distrair. Então rir dos problemas, da falta de maturidade daquele momento, daquele dia. Porque no final teremos aquele abraço sincero como o de rodoviária. Da alegria de um encontro e o coração apertado na despedida. Sinto falta de cada um deles, de cada risada vinda através das palhaçadas.

Pois não sei te dizer isso. Prefiro me ausentar, não saber se ainda se importa. Se faz ideia de quanto penso, lembro e ainda desejo. Sugiro que suma também e não me mande notícias. Nem uma linha sequer.

Mas acabarei por respirar na frente do espelho até conseguir escrever o seu nome, olharei para o telefone e esperarei talvez você ligar. Vou ler cada mensagem e interpretá-las sempre com um tom de esperança, de que ainda resta um sentimento aí.

Nos meus sonhos vou te ignorar, desprezar e me afastar até acordar, porque a lucidez não me permite. Teima em te seguir, de querer ainda te sentir, nem que seja um tiquinho.

Mas essa lucidez me confunde, não permite que eu pare por mim. Que decifre cada pensamento e o porquê de tanto sofrimento. Desconheço esse sentimento, não me lembro ao certo o poder de sua intensidade.

Tem nome. Uma palavra linda, doce, sutil, mas que faz estragos se não souber usá-la. Por isso não digo, não resumo o que sinto, não simplifico, não oculto os detalhes. Pois a cada dia se renova e não me importo em te explicar tudo novamente, com todas as letras.

O ‘eu te amo’ são para os preguiçosos. 

domingo, 18 de março de 2012

O mundo paralelo de um ciumento

Foi tentando achar uma explicação e que depois de tanto pensar, juntando aqui ou ali alguns acontecimentos do passado, percebi então que quando menos espero eu perco o controle de algo sobre mim. Sou motivado pela felicidade alheia, pelo sorriso conquistado, por risadas fora de hora e pela paixão desprevenida.

Uso e abuso dos meus sentimentos; por dias acordo apaixonado e durmo decepcionado. Por outros, passo o tempo todo procurando o que faça despertar um sorriso bobo – daqueles sem motivos – ou um suspiro que para a honra masculina machista passa por despercebido. Sentimentos que um adolescente sabe bem o que é.

E é nesta fase da vida – a adolescência – que não temos controle de nada, principalmente o ciúme. Sentimento impróprio, chato, repugnante e avassalador. Quantos relacionamentos terminam por conta disso? Quantos amores sucumbem diante dessa tormenta arrasadora, que não tem dó e muito menos piedade? Só quem sentiu na pele sabe bem do que estou tentando dizer.

Mas essa tempestade – típica na fase inicial dos relacionamentos – sempre leva um pouco de chuva e vento para outras regiões. Não há como se esconder. Imprevisível, além do descarte. Quando já estamos bem calejados das pancadas mundanas, vem o ciúme. É dor que não passa com um assopro. Incomoda, limita nossos movimentos.

Olhamos, procuramos, encontramos, olhamos de novo. Ainda não satisfeito, olhamos mais uma vez. É um sentimento de ver e não acreditar, por isso a insistência até que nada prove o contrário. É porque nunca prova mesmo. Neste momento ninguém entra e ninguém sai. É um mundo paralelo que fazemos parte.

É uma mistura de insegurança com a falta do confiar em tal pessoa ou em você mesmo. Não temos controle, nem de nós e muito menos da outra pessoa. Instinto animal, quando um inimigo resolve invadir o seu espaço demarcado, mas para nós isso não existe. Não temos alguém como propriedade. De fato não nos pertence.

Há o ciúme involuntário, aquele que só existe em nossa imaginação. Também involuntário quando somos pegos de surpresa pela presença de um amigo – de onde nunca nos interessa – que nos toma como de assalto e fala de coisas que vivenciaram, ou seja, estamos fora da conversa.

Mas existe um tipo senão o pior, um dos mais terríveis. Aquele por pura maldade, que vem como forma de jogo. Masoquismo herdado da juventude e que a maturidade já deveria ter feito por saber que nada acrescenta.

Provocar o ciúme alheio é como derrubar o castelo de areia de uma criança na praia. Colocar açúcar na lasanha da sua mãe. Manchar com vinho o vestido da noiva antes do altar. É planejar a viagem dos sonhos, colocar todas as malas no carro e decidir ir trabalhar no dia seguinte. Um estrago provocado sem saber da sua dimensão.

Sim, existem aqueles que percebem tal disparate e interpretam como um surto de infantilidade, mas muitos caem nessa cilada. O provocador quer chamar a atenção, assim como os índios tocam tambores para chamarem a chuva. É o amor subtraído. Emana decepção. Desnecessário.

Provocar o ciúme alheio é desdenhar do amor.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O que cabe em um coração?

Ninguém sabe mais de mim do que eu mesmo. Assim penso, uma convicção tamanha. Algo parecido como uma religião. É muita fé de que nada mais abala e nada mais é capaz de mudar. O que nada mudaria segundo minhas convicções, continuará intacto. Sem saber ao certo, paira a dúvida.

Quantos corações cabem dentro de uma pessoa? Acredito que apenas um. Mas quantas pessoas cabem dentro de um coração? Muitas.

Já me perguntaram se é possível amar mais que uma pessoa. Já vi esse questionamento em um filme, mas não lembro qual. Mas essa não é uma dúvida corriqueira. Nem é preciso ter um coração tão grande que possa amar duas pessoas ao mesmo tempo. Então eu acredito que sim, cabe mais de um amor no mesmo coração.

Acredito que o amor não morre. Apenas adormece. Como um urso na época de hibernação, uma grande dose de um sonífero. O paciente depressivo que toma seu Rivotril para dormir e esquecer as dores do mundo. As suas tristezas interioranas. Fingir que está tudo bem. Um esquecido que jamais será lembrado.

Enquanto um dorme, outros podem ocupar um lugar nesse coração. O amor preenche espaços vazios. Propaga-se com a felicidade, se espalha na velocidade da emoção, penetra-se na medida em que os carinhos acontecem. O amor se alastra com o aperto de cada abraço, com os sorrisos trocados, com beijos demorados.

Mas a dúvida surge quando o adormecido resolve acordar. É amar duas pessoas ao mesmo tempo? O despertado continua tendo seu lugar cativo? O amor novo consegue ter força para lutar contra um passado?

Creio que são esses os questionamentos mais comuns. Essa certa pessoa que me perguntou se é possível ter dois amores provavelmente tinha esse pensamento. O velho amor acordou, ele não voltou como muitos por aí pensam. O amor não vai embora ou morre, tampouco ressuscita. Com certeza foi feito algo para que acordasse. O amor é seu e só você tem esse poder de tirá-lo do coma.

Por isso acredito que nesse caso é possível mesmo amar duas pessoas. Não ter o mesmo sentimento por ambos, mas cada um com suas individualidades. Não é igual e nem será. Não é medido porque são tempos diferentes. Talvez a mulher do naufrago, após anos do desaparecimento do seu marido e com a sua vida já refeita, tenha sentido algo parecido.

Infelizmente não tenho a fórmula para resolver esse problema. Talvez nem exista uma solução. Mesmo que o coração esteja em divisão, o amor não é uma matemática exata, nem uma equação.

O amor nasce, cresce, vive intensamente e também dorme. Às vezes acorda e encontra com outro gerado na sua ausência. Amor só morre quando morremos. O levamos porque amor não é matéria.